Avó centenária é inspiração de Leandro Euzébio, o filho de Cabo Frio
Cidade da Região dos Lagos é refúgio do zagueiro do Fluminense, que tem em Dona Otília, de 103, a fã número 1: ‘Ela é um exemplo de vida’
A cena é rotineira, se repetiu em cada uma das 36 partidas realizadas pelo Fluminense no Brasileirão de 2010. Dona Otília Pereira, de 103 anos, aguarda ansiosamente o Tricolor entrar em campo, coloca a cadeira na frente do televisor para superar os problemas de visão, e de orelha em pé acompanha cada jogada. Quando a bola balança as redes, vira-se para o parente mais próximo e pergunta:
- Foi gol do meu neto?
Em cinco oportunidades a resposta foi sim. E este número é alto se levado em conta que o xodó de uma das mais idosas torcedoras pelo título brasileiro do Flu é um zagueiro: Leandro Euzébio. Apontado por Muricy Ramalho como o melhor de sua posição na competição, ele deixou o modesto bairro de São Jacinto, em Cabo Frio, ainda com quatro anos, mas não o tirou do coração. Principalmente porque sua fã número 1 está lá: Dona Otília.
- Estimo que meu neto seja muito feliz e tenha a oportunidade de jogar por muitos anos. Que Deus esteja sempre com ele, que me dá muito orgulho. Fico feliz por saber que da nossa família um deu certo. Torço para que ele tenha uma vida muito próspera e feliz. Acompanho sempre todos os jogos – disse a vovó coruja ao lado do zagueiro de 29 anos, que a visita regularmente.
Contratado no início do ano por indicação de Cuca após boa temporada no Goiás, Leandro Euzébio superou a desconfiança dos que não o conheciam para se tornar intocável na equipe tricolor. Sucesso conquistado com dedicação e pautado nos ensinamentos da avó centenária.
- Ela é um exemplo de vida não só para mim, mas para toda a família. É importante tê-la não somente com essa idade, mas com a saúde que tem. Sem dúvida, é o que faz com que eu possa lutar e batalhar a cada dia mais. Meu pai sempre me ensinou a correr atrás dos meus objetivos e nunca fazer coisas erradas. E quem passou isso para ele foi minha avó. Isso me dá forças.
Líder do Brasileirão, com 65 pontos, o Fluminense depende apenas de si para ser campeão. Caso tudo dê certo, o camisa 4 não tem dúvidas de quem será a primeira a receber os agradecimentos pelo título mais importante da carreira.
- Vai ser dedicado para ela. Será um orgulho enorme para mim. Nunca tiro minha avó do pensamento, carrego para onde vou e tudo será para ela.
A casa humilde em São Jacinto é o porto seguro de Dona Otília, que, mesmo diante das ofertas do neto, não se muda para o centro de Cabo Frio. E as visitas constantes ao lugar onde nasceu fazem Euzébio recordar um período onde até mesmo tomar banho era complicado.
- Saí daqui com uns quatro anos, era bem pequeno, mas minha mãe sempre falou das dificuldades que passávamos. Não tinha luz, não tinha água encanada, acompanhávamos tudo pelo rádio de pilha, tínhamos que trazer água com o balde na cabeça. É importante saber que hoje em dia não precisamos mais passar por isso.
Nascido em Cabo Frio no dia 18 de agosto de 1981, Leandro Euzébio é do tipo de pessoa que não renega suas origens. Apesar das riquezas conquistadas no futebol, o zagueiro troca os condomínios luxuosos na Barra de Tijuca pelo convívio com os amigos da cidade da Região dos Lagos a cada folga.
- Gosto muito de vir a Cabo Frio. É uma cidade sossegada, tranquila para se viver. É onde me sinto bem, por estar com meus familiares e amigos. Todo mundo se junta. Venho em todas as oportunidades e nunca vou deixar de fazer isso. Essas são as pessoas que vão estar sempre comigo.
A forte ligação com a cidade natal, no entanto, não transforma o jogador do Fluminense em um típico cidadão cabofriense. Se em todo o Brasil o município é famoso pelo vasto litoral e pelas ondas que atraem surfistas, Leandro Euzébio foge à regra e nunca sequer subiu em uma prancha.
- Eu corro de ondas (risos). Meu pai não gostava muito de me levar na praia porque tinha medo do mar, e eu herdei isso. Não sou chegado, não. É melhor uma lagoa sossegada. Estou fora de riscos.
Passagem frustrante pelas categorias de base do Flu
Desde a infância, a paixão do zagueirão sempre foi a bola. Dos campos de pelada do bairro Vinhateiro, onde passou parte da infância, Euzébio resolveu se aventurar no mundo do futebol. Tentou a sorte no Esprof, de Cabo Frio, passou pelo Rio das Ostras, pelo Bonsucesso e conseguiu, enfim, uma oportunidade em um grande clube: o Fluminense. A história, no entanto, não teve final feliz, pelo menos no primeiro capítulo.
- Todo jogador quando tem a oportunidade em um time grande quer dar a vida. Comigo não foi diferente. O Valdir Espinoza começou a me chamar para treinar nos profissionais, inclusive, mas o clube e meu empresário não chegaram a um acordo e segui outro caminho. Acabou sendo bom por eu estar hoje no Fluminense e poder realizar o sonho do meu pai (já falecido), que era o único tricolor da família. Um torcedor fanático.
Nas peladas de várzea, eu preferia ser meio-campo, mas coloquei a cabeça no lugar e vi que ali não dava para mim"
Leandro Euzébio
O sonho de se tornar um jogador profissional foi realizado perto de casa, na Cabofriense. Destaque da equipe no Carioca de 2004, o zagueiro chamou a atenção do América-MG e passou ainda por Cruzeiro, Náutico, Omyia Ardija (JAP) e Goiás antes de voltar às Laranjeiras para brilhar em uma posição que não agradava muito a família.
- Minha mãe nunca quis que eu fosse zagueiro. Mas eu tinha um irmão que era atacante e tinha um corpo franzino. Vi que era muito mais duro, mais forte, e comecei a me arriscar na defesa. Nas peladas de várzea, eu preferia ser meio-campo, mas coloquei a cabeça no lugar e vi que ali não dava para mim.
As tentativas de ser um meio-campo não deram certo, mas agregaram a Leandro Euzébio uma virtude que se fez presente neste Brasileirão: o poder de finalização. Com cinco gols, ele é o segundo zagueiro que mais balançou as redes na competição, perdendo apenas para Antônio Carlos, do Botafogo. Nas duas últimas rodadas, porém, o tricolor sonha recuperar o posto - perdido no último domingo com o gol do botafoguense sobre o Inter. E, se possível, com o gol do título.
- Primeiro, tenho que me preocupar em ser campeão. Mas, se tiver oportunidade, o Antônio Carlos pode abrir o olho que vou querer fazer o meu e voltar a ser o zagueiro com mais gols no Brasileirão.
Painel homenageia filho ilustre em Vinhateiro
Antes mesmo do título, porém, Leandro Euzébio já é visto como um campeão pelos vizinhos de Vinhateiro. A idolatria pelo filho do bairro carente é tanta que um painel exposto em um dos bares mais visitados do local relata passo a passo sua trajetória de sucesso. O objetivo? Mostrar para as crianças que vale a pena correr atrás dos sonhos.
- Acompanho o trabalho dele desde garoto. Queríamos que muitos do bairro alcançassem esse sucesso e esta homenagem é para mostrar aos jovens que podemos realizar os sonhos se seguirmos o caminho do bem. Hoje é muito difícil viver em periferia, mas com vontade e perseverança, é possível conseguir crescer – disse José Carlos Gomes, responsável pela homenagem.
No local, há também uma coleção de camisas de todos os clubes defendidos por Euzébio. A do Fluminense ainda está em falta, mas já há uma promessa de doação da que será usada na partida final do Brasileirão, contra o Guarani, no dia 5 de dezembro, no Engenhão.
- Ver uma pessoa que me viu crescer fazer uma homenagem dessas me deixa sem palavras. Estávamos até brincando que ele é botafoguense e teve essa atitude. É algo gratificante e que me deixou muito feliz. Nada melhor do que o título para coroar o apoio de todas essas pessoas. A camisa vai vir para o bar.
E essa não foi a única promessa feita por Leandro Euzébio aos vizinhos: em caso de conquista de título, uma superfesta está prevista.
- Isso não vai faltar. Respeitamos todos, mas, se tudo der certo, e dependemos das nossas forças, vai ter uma festa aqui. Eles merecem.
Os moradores de São Jacinto e Vinhateiro contam os minutos. Ou melhor, os jogos: faltam dois.
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