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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Futebol Internacional

14/11/2011 07h35 - Atualizado em 14/11/2011 16h47

Tensão e surpresa em Bagdá! Zico diz: ‘Não acreditavam que eu estava lá’

Treinador do Iraque conta momentos vividos na passagem pela capital do país no fim de outubro. Cidade destruída e armas assustam o ex-jogador do Fla

Por Márcio IannaccaDireto de Doha, Qatar

A cena é comum em Bagdá. A cada 500 metros, uma barricada. O carro é parado, o soldado fortemente armado pede para o motorista abaixar os vidros e confere a identidade dos viajantes. Em um dos muitos automóveis parados no último dia 31 de outubro, o militar responsável pela vistoria abriu um sorriso de alegria e surpresa ao perceber que o técnico Zico, atual comandante do Iraque, era um dos passageiros do veículo. Que de fato, o Galinho de Quintino, maior ídolo da história do Flamengo, era o treinador da equipe nacional.

- A reação era de felicidade. Você via que a coisa era espontânea no rosto deles. Você sentia que os caras pensavam e podiam acreditar: “Ele realmente é o técnico do Iraque. Ele está aqui”. Eles não acreditavam que eu era o técnico do Iraque. Já tivemos o Edu que foi técnico lá e conseguiu levar o Iraque à Copa. Aí eu volto para lá, acredito nesse projeto, os caras ficam maravilhados.

Zico iraque entrevista (Foto: Márcio Iannacca / Globoesporte.com)Zico no bate-papo com o GLOBOESPORTE.COM (Foto: Márcio Iannacca / Globoesporte.com)
ELIMIMATÓRIAS ASIÁTICAS

Faltando duas rodadas para o fim da primeira fase, Japão, Jordânia e Uzbequistão já conseguiram a classificação. Por outro lado, algumas seleções não têm mais chances. É o caso da Coreia do Norte, que enfrentou o Brasil na Copa do Mundo da África do Sul em 2010.

Com nove pontos no Grupo A, o Iraque só precisa de um empate para se garantir. Com o ponto, a equipe não poderá ser mais alcançada pela China, que está com três e só pode chegar a nove. O Grupo D é o mais disputado. Austrália (9), Arábia Saudita (5), Tailândia (4) e Omã (4) ainda têm chances de classificação.

Essa é apenas uma das muitas histórias que Zico contou durante a entrevista que aconteceu aos jornalistas brasileiros no Hotel Ramada, no Qatar. Em Doha, ao lado do irmão Edu e do preparador físico Moracy Santana, o ex-jogador finalizou a preparação do Iraque para o jogo desta terça-feira, contra a Jordânia, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2014. O time ocupa a segunda colocação, com nove pontos, e precisa apenas de um empate para chegar à segunda fase do torneio classificatório.

VEJA A TABELA COMPLETA DAS ELIMINATÓRIAS

No bate-papo, Zico revelou detalhes da visita ao Iraque. Segundo o treinador, a capital Bagdá está completamente destruída após a queda do regime de Saddam Hussein, morto em 2006 após a invasão das tropas americanas. O Galinho admitiu ter ficado incomodado com a falta de liberdade e com a presença de muitas armas nas ruas e nas viaturas que o conduziram pelas ruas da capital do país do Oriente Médio.

- Estou acostumado a andar no banco da frente dos carros, no carona. Quando entrei em um dos veículos, vi uma arma sobre o banco. Aquilo me deixou assustado. O motorista pediu para eu passar para o banco de trás, que não poderia andar ali – contou o treinador, antes de iniciar a entrevista na concentração do time iraquiano, em Doha.

Confira abaixo a íntegra da entrevista com o Zico:

Zico iraque entrevista (Foto: Márcio Iannacca / Globoesporte.com)Zico conta histórias vivida na viagem a Bagdá
(Foto: Márcio Iannacca / Globoesporte.com)

Como é a situação do Iraque?
ZICO:
É uma cidade sitiada. A cada 500 metros, você vê barricadas, jovens armados, perguntando para onde você vai... Ao me verem, a felicidade era geral porque os caras não acreditavam que eu estava lá. Os caras viam o técnico do Iraque, abriam o sorriso e o comboio ia passando. Na volta, do aeroporto até o hotel, levamos uma hora e meia, duas, porque você precisa dar uma volta grande em um percurso que normalmente você levaria 20 minutos. A situação está complicada ainda. Nos hotéis, madeira nas janelas, você não pode chegar até a varanda... Bom, eu pelo menos não vi ninguém (risos). Isso é uma situação chata. Os iraquianos que estão na seleção e moram lá dizem que não tem problema nenhum, mas nós que estamos acostumados com liberdade, com o direito de ir e vir. No Brasil, problemas nós temos aos montes, mas andamos na rua sem ninguém te pedir nada, te importunar para nada. Essa falta de liberdade nós sentimos bastante.

A cidade está destruída?
Completamente. É uma pena. Estamos conseguindo vitórias, dando alegrias ao pessoal, que é doido por futebol, gosta do Brasil e nos adora demais. Nas vitórias, nós ficamos felizes porque estamos dando um conforto para o povo iraquiano.

Das experiências que você teve pelo mundo, essa do Iraque foi a que mais mexeu com você? Por quê?
Não estamos acostumados com a falta de liberdade do ir e vir. Foi a primeira vez que eu senti isso. A cada lugar que você para é uma tensão e você não sabe o que vai acontecer. O cara abre a janela, olha para você e eu sentia que o cara ficava feliz por me ver, de acreditar que o Zico estava ali mesmo. Os caras da imprensa diziam que eu tinha que ir até Bagdá para o povo me ver porque não acreditavam que eu era o técnico do Iraque. Mas eu dizia que estava no banco, o jogo passando na TV e eu não precisava ir lá. A imprensa não tem liberdade para sair de lá e quer que tudo aconteça por lá. Esse problema para eles é muito ruim. Celebramos a assinatura do contrato, mas é um clima tenso, você é revistado para tudo que é lado.

Eu nunca tive arma na minha casa, passo longe. Não suporto isso. Ficamos assustados. São jovens que talvez não tenham a experiência necessária para lidar com uma arma"
Zico

E esse convívio com armas?
Eu nunca tive arma na minha casa, passo longe. Não suporto isso. Ficamos assustados. São jovens que talvez não tenham a experiência necessária para lidar com uma arma. Nem de brinquedo eu gosto. Foram dois dias que, não vou mentir, fiquei tenso. E ainda ocorreu que logo depois que chegamos ao aeroporto tínhamos um voo privado para o Qatar e o espaço aéreo não foi aberto para o nosso avião levantar voo. Tivemos que voltar para o hotel e passamos mais uma noite. Fiquei muito preocupado.

Os jogadores do Iraque falam sobre a guerra?
São poucos que estão jogando no Iraque. Muitos no Qatar, no Irã, no Egito... Os que estão no Iraque não estão em Bagdá e acho que o maior problema é lá. Nas cidades do norte e do sul não existe problema. O centro do futebol iraquiano sempre foi Bagdá, que foi a cidade mais afetada. E por isso o Iraque está pedindo ajuda para que o futebol volte a ser o centro na capital do país.

Algum deles foi soldado?
Noto que os jogadores são muito tensos. É aquela coisa de tolerância quase zero. Qualquer coisa eles ficam nervosos. Qualquer coisa há uma discussão. Tudo isso deve ser influência do que eles viveram ou vivem.

E por que a decisão por adotar o Qatar como casa?
Por ter belos estádios, bons campos e para nós é importante porque o time é técnico e isso nos ajuda bastante. Jogamos bem aqui, bem na China, bem em Cingapura. O único lugar que o campo não era tão bom foi na nossa própria casa. Para nós, a Fifa proibindo foi até bom.

Tem acompanhado o Campeonato Brasileiro? Quem acha que leva o título?
Tudo por acontecer. Vai ser decidido até a última rodada do jeito que está caminhando. Está tudo muito equilibrado. Temos seis times na disputa.

Zico iraque entrevista (Foto: Márcio Iannacca / Globoesporte.com)Zico no bate-papo com o GLOBOESPORTE.COM
(Foto: Márcio Iannacca / Globoesporte.com)

E qual é a situação do Iraque nas eliminatórias para a Copa de 2014?
Essas duas vitórias que tivemos diante da China, que era a favorita do grupo, nos deram uma esperança grande nessa fase. Vamos jogar com a Jordânia, já classificada, e com Cingapura, no Qatar, precisando empatar um jogo. Acho que temos condições de vencer os dois e classificar. A outra fase realmente é difícil porque vamos enfrentar o Japão, a Coréia, a Austrália, o Irã... Mas acho que o Iraque pode brigar. Eles não vão ter moleza, vamos correr atrás da vaga. O time do Iraque é bom, os jogadores estão querendo e é a última oportunidade para muitos deles. É um time vencedor, que já conquistou uma Copa da Ásia e estão acostumados com grandes batalhas. Vamos brigar pela classificação.

Como avalia o momento do Mano na Seleção Brasileira?
Não me preocupo com esse momento. Muita gente fala que tem que jogar com grandes times. Com essas Olimpíadas, eu, no caso dele, colocaria a Seleção olímpica para correr atrás de uma medalha. Tudo que acontecer agora não terá influência em nada. Depois de 2012, das Olimpíadas, aí sim se pensa na equipe principal porque você terá tempo suficiente para preparar uma seleção. É hora de pensar nos olímpicos e o Brasil tem uma geração muita boa para ganhar essa medalha. Depois pensamos na principal.


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