Por nova "liberação", Argélia busca classificação inédita contra a Rússia
Seleção africana pode conseguir vaga nas oitavas da Copa pela primeira vez e fazer história como time clandestino de 1958, que lutou pela independência do país
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Quando a bola rolar na Arena da Baixada, às 17h (de Brasília), os jogadores da Argélia darão início aos 90 minutos mais importantes da história da seleção de um país jovem, com apenas 52 anos, que, desde sua luta para ser independente da França, teve no futebol um importante aliado. A atual geração pode conseguir a primeira classificação das Raposas do Deserto para a segunda fase de uma Copa do Mundo e, confirmar, assim, a segunda “liberação” alcançada pelo esporte na nação norte-africana .
França e Argélia são intimamente ligadas até hoje. No atual elenco argelino, 16 jogadores nasceram na antiga metrópole, mas decidiram defender o país de origem de seus pais. Outros craques do futebol mundial não fizeram a mesma escolha, como Zidane, Nasri e Benzema. Mas, em 1958, as coisas foram diferentes: duas estrelas da França, pré-convocadas para o Mundial daquele ano, decidiram abandonar Les Bleus para se juntar a um time clandestino, que rodaria o planeta promovendo a causa da independência da Argélia, então colônia.
O atacante Rachid Mekhloufi era a estrela do Saint-Étienne e considerado um dos melhores jogadores da França na época, assim como zagueiro Mustapha Zitouni, do Monaco. Ambos foram procurados por Mohamed Boumezrag, um ex-jogador ligado à Frente de Liberação Nacional (FLN), principal entidade argelina na guerra pela independência, que já durava quatro anos. Ao lado de outros oito companheiros, concordaram em fugir da França para formar uma seleção da FLN na Tunísia.
SAIBA MAIS
- Eu não hesitei em momento algum. Claro que pensei na Copa do Mundo, mas isso não era nada se comparado com a independência do meu país. O que eu consegui com o time da FLN não poderia ser comprado nem com todo o ouro do mundo – disse Mekhloufi ao canal de televisão “Al Jazeera”. Ainda assim, ele conseguiu retornar ao Saint-Étienne para encerrar a carreira após a guerra.
- Mekhloufi era uma estrela na França, mas escolheu jogar pela Argélia e representar a causa do povo argelino. O time da FLN foi revolucionário, deu o exemplo para todas as pessoas do nosso país – disse o jornalista Saber Laroussi, do jornal “Sawt El Ahrar”.
A reação da França foi imediata: entrou com uma reclamação na Fifa, que decidiu que qualquer seleção que jogasse contra o time da FLN seria banida da Copa do Mundo. Não foi o suficiente para deter os jogadores. Ao todo, a pioneira seleção argelina disputou 91 jogos em quatro anos, venceu 65 vezes, empatou 13 partidas e perdeu outras 13. Mais importante do que isso, divulgou a causa argelina. Em 1962, o país estava, enfim, independente da França.
Novos heróis para a Argélia
Em 2014, a nova geração de jogadores da Argélia pode seguir o legado de seus antecessores. Contra a Coreia do Sul, a vitória por 4 a 2 significou a primeira desde 1982 e foi bastante comemorada pela população. A classificação para as oitavas de final, que pode ser alcançada com um simples empate contra a Rússia, desde que a Coreia do Sul não vença a França por três ou mais gols de diferença, marcaria uma nova era para o futebol do país.
- Seria uma nova liberação para a Argélia. Os jogadores já são heróis nacionais, mas se tornariam ainda maiores. Levaria o nosso futebol a outro nível – completou Laroussi.
- Este é um momento que pode ser histórico, não só para os jogadores, mas para toda a Argélia. Agora é o momento de brilhar. O coração e a cabeça farão a diferença para buscarmos esta classificação histórica – disse o técnico Vahid Halilhodzic, durante entrevista coletiva.
Capello promete Rússia ofensiva
Do outro lado, uma Rússia até então decepcionante jogará suas últimas fichas para permanecer na competição. Para continuarem no Brasil, os jogadores do técnico Fabio Capello precisam vencer a Argélia e torcer pelo tropeço da Coreia do Sul diante da Bélgica. Por isso, o treinador italiano prometeu um time ofensivo.
SAIBA MAIS
Nós sabemos que, para continuar no campeonato, precisamos ganhar. Mas nós sempre saímos para ganhar. Foi assim contra Bélgica e Coreia do Sul. Fizemos de tudo para vencer. Infelizmente, não conseguimos. Agora, só podemos ganhar, e é isso que estamos tentando fazer.
Caso não consiga a classificação, Capello já tem um discurso pronto para defender seus jogadores. Ele exaltou o retorno da Rússia à Copa do Mundo após três edições e deixou claro que a equipe ainda pode evoluir.
- Acho que o fato de ter vindo para a Copa é positivo, após 12 anos. Acho que é preciso ter planejamento para seguir adiante.
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